Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Ko Ko Thett

A poesia feita hoje no Brasil sobrevive em circuitos meio provisórios e precários. Muitas vezes, em razão disso, ela se torna divulgadora do estrangeiro e do internacional, sem mediação crítica ou histórica, sem projeto. A série “Lugares contemporâneos da poesia”, da Sibila, visa, em parte, a fazer alguma mediação, com caráter investigativo, acerca desse fenômeno de deslocamento das literaturas nacionais. Poetas e seus poucos leitores formam, estranhamente, “uma comunidade de pessoas que nada têm em comum”.Tratando-se mais, como caracteriza Mario Perniola, “de um aglomerado de mal-entendidos, um concerto de equívocos, uma convergência efêmera de interesses”. A Sibila tenta ter alguma clareza sobre o tema, indagando os autores e buscando seus contextos. Vamos agora ao poeta burmense KO KO THETT.

A Birmânia, independente em 1948 da Inglaterra, viveu sob uma ditatura militar, com alguns golpes dentro do golpe original, de 1962 a 2011. A monarquia birmanesa, do século 19, anterior ao jugo inglês (obviamente tirânico), foi, como de costume, autoritária e genocida com as inúmeras etnias do país e, quase um século depois, os militares birmaneses, de 1962 a 2011, representaram, a seu modo, uma extensão de tais “tradições” despóticas, mesmo que em nome de um vago socialismo. É preciso lembrar que, em 1885, a totalidade de seu território ficou submetida ao controle do Reino Unido e transformou-se, por decisão de Londres, numa província indiana, passando a chamar-se Burma (Birmânia). A família real, do derrubado Reino de Ava, exilou-se na Índia.

Gilberto Freyre trata, de passagem, de Burma em seu livro China tropical. Valendo-se de notas de Fernão Mendes Pinto (1510-1583), Freyre registra, tentando compreendê-las, as práticas religiosas do país como “fantásticas e absurdas” para a lógica de um europeu, como a do navegador/escritor português. Cabe aqui observar, neste sentido, que, num ensaio intitulado “Matar um elefante”, George Orwell, com ímpeto imperial, anota, em torno de 1939, o “ódio” que os “locais “nutriam por ele: “Em Moulmein, na baixa Birmânia, eu era odiado por um número considerável de pessoas. Desempenhava na cidade as funções de oficial de polícia de uma subdivisão e o sentimento anti-europeu ali, embora de uma forma inobjetiva e secundária, era de fato muito virulento”. Ódio bem razoável diante de um “inglês” predatório.

Mianmar é a designação escolhida pelos ditadores, sob alegação de que o país não poderia seguir com seu nome colonial, mas ela não é adotada pelos opositores. Mianmar ou Burma ou Birmânia é, aliás, mais que um país, é um locus hype de todos os tipos de conflitos: religiosos, entre budistas e muçulmanos, budistas e católicos, e assim por diante, de confrontos políticos, pós-coloniais e étnicos, de violação permanente de todos os direitos humanos, de desastres naturais e de exuberância da natureza. É um locus hype de pobreza, que precisa ser superada, e não “acolhida” pela via do exotismo, do misticismo ou do “turístico”.

De 2011 para cá Mianmar iniciou um processo tímido de abertura política, após as eleições gerais em 2010, levando igualmente civis ao governo. Governo que, entretanto, não modificou, ainda, substancialmente, a pobreza extrema de seus nacionais, embora já tenha superado, em parte, a cena testemunhada por Paulo Sérgio Pinheiro, relator especial da ONU para a situação de direitos humanos daquele país, de 2000 a 2008. Indagado, em 2009, a respeito do que é ser um morador da cidade birmana de Rangum (ex-capital do país), o que será relevante para se compreender o percurso dopoeta Ko Ko Thett, ele respondeu: “É não ter nenhuma liberdade, ser permanentemente vigiado. Não é muito diferente do Brasil sob o ditador general Médici (1969-1974). É não ter voz no processo político, não ter acesso à imprensa livre, não poder participar da política ou se organizar para exprimir seu ponto de vista. Deve-se perder a impressão de que a situação em Mianmar é patológica. Trata-se de uma ditadura militar convencional, patética, pois submete uma cultura antiquíssima, refinada e sofisticada, um povo de uma delicadeza e de uma sensibilidade extraordinárias. Sem dizer de um país com uma riqueza histórica e uma natureza extraordinária. Certamente, Mianmar é uma das nações mais lindas e impressionantes”.

Thein Sein, um ex-comandante militar, é atual presidente desde março de 2011. Ele foi o primeiro-ministro do país de 2007 até 2011. Seu novo governo, depois das eleições, empreendeu uma série de reformas econômicas e políticas, liberando muitos presos políticos e levantando a censura aos veículos de imprensa. O maior partido do país Liga Nacional para a Democracia (LND), de oposição, é liderado por Aung San Suu Kyi, prêmio Nobel da Paz em 1991– mantida em prisão domiciliar, pela ditatura, por 15 anos.Em 13 de novembro de 2010, Suu Kyi foi finalmente libertada. Ao discursar para simpatizantes logo depois de sua libertação, defendeu a democracia e a “reconciliação nacional”. Em 15 de agosto de 2011, ela se encontrou com o presidente Thein Sein e manifestou seu apoio à abertura iniciada por seu governo. Em 2012, Suu Kyi elegeu-se deputada. Tenta-se alterar uma cláusula constitucional que veda a candidatura de nacionais que tenham cônjuges e ou filhos nascidos no exterior, como Suu Kyi os têm, para que ela possa disputar as eleições para presidente agora em 2015. Suu Kyi é filha de um herói da independência:Aung San (1915-1947) um revolucionário, nacionalista, general e político birmanês.

Esse contexto mínimo, de uma longa ditadura em transição agora para uma democracia, situa de algum modo KO KO THETT e o amor e o ódio que sente por seu país. Poeta, tradutor, editor e exilado político até 2011, Thett nasceu em Rangum em 1972. Em 1995, enquanto estudava engenharia no Instituto de Tecnologia de sua cidade natal (YIT), lançou clandestinamente seu primeiro livro de poemas Old Gold. Com o lançamento de Funeral do ouro resistente (leia texto abaixo), seu segundo livreto, ele foi detido, em uma base militar por 135 dias, por seu engajamento na insurreição política de dezembro de 1996. Após a sua libertação, em abril de 1997, Ko Ko Thett deixou tanto o YIT como a própria Birmânia, mudando-se para Singapura e, em seguida, para Bangkok, onde passou três anos trabalhando para o Serviço Jesuítico aos Refugiados Ásia-Pacífico. Em 2000, Thett foi para a Finlândia, onde fez estudos de paz e conflito na Universidade de Helsinki, antes de se mudar para Viena, onde estudou no Instituto para o Desenvolvimento Internacional da Universidade de Viena. Atualmente, vive na Bélgica e é o editor do website birmano “Poesia Internacional” e co-editor e tradutor de Bones Will Crow: 15 Contemporary Burmese Poets, an anthology of Burmese poetry, que, em 2012, recebeu o prêmio English PEN Writers in Translation Programme (Inglaterra) e foi considerado pelo jornal inglês The Guardian “um dos dez melhores livros que captam um dos países mais tumultuados da história”. Saiu, este ano, The Burden of Being Burmese, seu novo livro de poemas. Régis Bonvicino

Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Thett: Sim.

Sibila: Que poesia você lê?

Thett: Leio poesia contemporânea birmanesa, claro. Também poesia contemporânea do mundo inteiro, geralmente em tradução inglesa.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Thett: O fato de ler poesia produz efeitos tanto rotatórios quanto tradutórios, essa espécie de inquietação da fantasia que não está nem aqui nem lá. Mesmo assim você sabe que ela existe.

Escrita de poesia

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Thett: A angústia da inexatidão.

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Thett: Os que praticam poesia deveriam acabar no Nirvana. Mas os poetas se acham melhor no Avizi, o inferno dos infernos, segundo o Budismo.

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Thett: Não tenho ideia. O que poderia ser “interesse público”?

Ko Ko Thett em Tunis no Museu do Bardo. No verão passado, o museu foi atacado recentemente pelo EI. Foto: Lut Lams

Ko Ko Thett em Tunis no Museu do Bardo. No verão passado, o museu foi atacado pelo EI. Foto: Lut Lams

Publicação de poesia

Sibila: Qual o melhor suporte para a sua poesia?

Thett: Dinheiro, daí sua falta.

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Thett: O fato de publicar reduz um poema a uma “peça” de texto, num livro… A tarefa do poeta é resgatar seu trabalho do livro e colocá-lo de novo na tradição oral.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Thett: Não tenho ideia.

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Thett: Seria eu sentar e pensar seriamente, de novo, quando parar, apenas para acabar me vendo dando mais um toque.

*  *  *

Funeral do ouro resistente
Ko Ko Thett

A memória não é algo confiável. Milan Kundera pode também dizer a você que a memória que um exilado tem de sua casa jamais poderia ser tão infiel. Geralmente ela vem emplastrada com fragmentos conflitivos: o que costumava estará lá contra o que devia estar lá. O complexo de Dom Quixote para os sociólogos, a tensão entre experiência e expectativa. Para ele o retorno para Mianmar, no começo de agosto de 2012 — a primeira vez, depois de dezesseis anos — foi como andar feito um sonâmbulo dentro do documentário They Call it Myanmar. Ele esperava ver uma miséria acabrunhante, mas nunca tanto assim. Monywa, um centro comercial da região, a 85 milhas ao norte-oeste de Mandalay, apareceu no noticiário recentemente por ter sido castigado por uma seca gravíssima, devida ao deflorestamento e ao roubo epidêmico de terras, que chegaram junto com as reformas neoliberais de Mianmar. A região precisa urgentemente de chuva e de justiça distributiva. O número de motos nas ruas de Monywa multiplicou-se, desde a última vez em que ele esteve lá, em 1994, como visita. Em um dia qualquer, contaram-lhe, há cinco acidentes com motoqueiros que acabam na emergência do hospital de Monywa. Em outros aspectos, a cidade não mudou grande coisa. Com suas ruas poeirentas transformando-se nas correntezas que existem sob os ossos da China, Monywa poderá muito breve se tornar uma Mandalay, ou mesmo uma cidade de Ho Chi Minh.

Na manhã de 9 de agosto, um velho amigo que ele não vira durante quase dezesseis anos apareceu em seu alojamento com um velho livro de poemas. O velho amigo era Ko Naung. O livro era o Funeral de ouro resistente (conhecido, depois, como Funeral), uma coletânea de poemas que ele havia publicado na sua alma mater, o Instituto de Tecnologia de Yangun (YIT), em novembro de 1996. Ele não tinha ideia de que Ko Naung era Thet Naung Soe, aquele que fora sentenciado a 14 anos de prisão por haver protestado (sozinho) contra a junta birmanesa, diante da Prefeitura de Rangum, em 2002. Fora solto em novembro de 2007, após o protesto dos monges de todo o país, conhecido como a Revolução do Açafrão. Uma acusação a Ko Naung era seu verso “Vocês me atiraram à dissensão”.

Como muitos do escritos ciclo-estilados que o precederam, e o seu par A corrupçãodo Novo Século, da Universidade de Rangum, Ouro resistente é o nome de uma série de folhetos produzidos por estudantes com inclinação poética e política, que queriam esticar sua língua para além das barreiras da censura militar. Caso as autoridades ficassem iradas, o piso para essa publicação underground seria o de sete anos atrás das grades, de acordo com leis como a “Lei de proteção para a transferência pacífica e sistemática da responsabilidade estatal e para a representação bem-sucedida das funções da Convenção Nacional contra distúrbios e oposições”. Ko Naung, ele mesmo licenciado em Direito, assumiu conscientemente o risco considerável de distribuir a coletânea subversiva no campus. O que é mais grave, ele havia guardado dois exemplares remanescentes do Funeral, durante todos esses anos. Ouro resistente, ou ouro velho, é a cor do portal neoclássico do YIT. O ouro é o metal sagrado de Mianmar. Quando o tesouro nacional vivente Dagon Taryar (nascido em 1919) traduziu para o birmanês “ouro velho” como shwe-o-yaung, shwe-o-yaung, décadas atrás, essa expressão tornou-se logo uma sensação. Funeral trata, portanto, de enterrar a tirania dos clichês. A capa representa a reprodução de uma fotografia de uma vala comum de rapazes, tirada durante o massacre de Srebrenica, em 1995. Dez poetas contribuíram para a coletânea Funeral com uma média de dois poemas cada. Choon foi a única poeta mulher, uma vez que a cota do YIT, em 1996, era a terrível 7 por 1. Há um lamento famoso de estudantes: “Faltam livros, professores, computadores, dinheiro no bolso e garotas sexy”.

O experimentalismo técnico e linguístico e o conceptualismo que não eram permitidos na imprensa formal eram justamente as marcas da série Ouro resistente.

A peça que abria Funeral era um trabalho coletivofeito por contribuintes chave, sem menção da autoria. A ideia era a solidariedade do anonimato, uma vez que a maioria dos colaboradores usava um pseudônimo. Nessa coletânea podem ser encontrados os primeiros flertes dos birmanenses com a ecopoesia e com a poesia feminista.

Há uma página em branco no meio da antologia, zombando das autoridades da censura que apagam com tinta prateada os parágrafos que ferem sua sensibilidade, em qualquer publicação. Há uma tradução dos Versos de Max de John Whitworth, que exige que os cachorros sejam mortos a tiro devido ao fato de lamberem as botas. Um objettrouvé em seu poema “Declaração” — “Ele era um assassino/ desde o começo, e não suportava a verdade, porque/ não há verdade nele” (John 8:44) — fala por si só.

Tudo, em Funeral, é uma exposição da frustração dos estudantes com sua vida sem liberdade e sem amores, sob o regime.

Sintomático é talvez o fato de que, um mês antes do lançamento de Funeral, o YIT fora fechado para sempre. Um protesto de estudantes, que se dera diante do portal do YIT no começo de dezembro de 1996, logo se espalhou para outros campi. O regime foi pego de surpresa nas primeiras horas de demonstração, mas reagiu logo em seguida, cercando os líderes estudantis e fechando as universidades. Para dispersar os estudantes dos centros urbanos, a maioria dos campi, e o YIT em primeiro lugar, foram fechados, desmembrados e deslocados para cidadezinhas-satélite. As universidades do país inteiro só seriam reabertas em 1999.

Ele também teve que enterrar sua poética birmanesa e começar a escrever seriamente em inglês, em 1998, logo depois de deixar o país no verão de 1997, depois da detenção de quatro meses por sua participação no protesto. Agora ele se pergunta: O que teria acontecido com seus poemas birmaneses se ele tivesse ficado no país? Por exemplo, seus cubinhos de açúcar no tempo presente, que aparecem no Funeral, teriam continuado doces, para ele?

*  *  *

Faddish sugar crystals
Ko Ko Thett

the flip-flap of a lady’s sarong
what about that for alternative music
condensed f-words from a cuppa
artificially coloured baozis replicate like reproduction art
art reproduction formaldehyde
a roadside teashop, ants on the jackboots
with our mouths agape, the longish
hand of a rickety old lady droops
as she bends over backward
to pick up a patinated shilling
the last remain of the great war
the street lamp limps in light rose red
the flap-flap of a hand fan
insects swarm in swarm behaviour
a six-door black cadillac swooshes past
fume shoots up and deflowers the sky
fliers, handouts and fliers
fliers, fliers and more fliers

Caprichosos cristais de açúcar
Ko Ko Thett

O flip-flap do sarongue de uma dama
tal qual música alternativa
palavrões em f condensados numa xícara de chá
granizo artificial colorido replicando como reprodução de arte
reprodução de arte morbicida
uma loja de chá ao lado da estrada, formigas nas botas de cano
nossas bocas abertas, a mão alongada
de uma velha raquítica se inclina
quando ela se curva para apanhar
um shilling enferrujado
último vestígio da Grande Guerra
o lampião da rua vacila na leve luz vermelho-rosa
o flap-flap de um leque de mão
insetos enxameiam em seus próprios termos
um cadillac preto seis portas sussurra passado
tiros de fumo sobem e defloram o céu
panfletos, folhetos e panfletos
panfletos, panfletos e mais panfletos

Tradução deste poema: Régis Bonvicino e Aurora Bernardini, poema do livro the burden of being burmese, Zephyr, 2015

*  *  *

Funeral foi, provavelmente, o primeiro livro publicado na Birmânia com código de barras na sua quarta capa. Tal como as palavras, os números podem transmitir algum significado quando arranjados em certa ordem. “A inteira história dos movimentos dos estudantes da Birmânia está encravada nesse código de barras, não é?”, alvitrou o poeta Way Khuang, quando lhe decifraram o código 133 88 189 2010, num restaurante de Rangum.

Ele foi decifrado. Os últimos quatro dígitos, 2010, por exemplo, significam 20 de outubro de 1996, o dia em que alguns estudantes do YIT foram ameaçados e apanharam brutalmente da polícia local, num restaurante próximo ao terminal do ônibus, na rodovia não longe do campus. O acontecido levou ao protesto estudantil do ano de 1996. O resto: 133 está por dia 13 de março; 88, por 8 de agosto; 189, por 18 de setembro, que são as datas mais bem conhecidas na história recente de Mianmar. Espero que você procure conhecê-las por sua conta. (Tradução deste texto em prosa: Aurora Bernardini)

Assista à cenas do filme They Call it Mianmar

 

Elefante aquático

Há ou não há elefantes d’água?
Para todo cornaca
Eles são reais e etéreos
Na água, olhos de peixe, como peixes movem-se
Em terra podem viver por horas
Eles respiram pelo tronco.
São baixos, roliços,
E têm dois pares de pernas,
Cada uma com quatro ou cinco garras,
Também conhecidas como línguas menores.
Quando já crescidos,
Os mamutes-miniatura têm 0,25 mm de comprido
(0,009 polegadas) e 0,2 mm de alto (0,007 polegadas).
Comem trigo d’água
Amam espinafre d’água
Vagueiam sob a água o dia inteiro
De noite sulcam teu sobrolho
Elephas minimus são seminoturnos.
Gostam sobretudo de águas transluminosas
De piques, poleiros e pedrinhas.
Elefantes, reais ou etéreos,
Nunca vistos no habitat dos elefantes d’água.
O instinto lhes diz —
A mordida deles é fatal.

Do livro the burden of being burmese, Zephyr, 2015
Tradução de Aurora Bernardini

Water Elephant

Water elephants exist, or do they?
To every mahout
Water elephants are real, and ethereal
In water, with fisheyes, they move like fish
On land they can survive for hours
They breathe through trunk.
They are short, and plump,
With two pairs of legs,
Each with four to five claws,
Also known as minor tongues.
When fully grown,
Miniature mammoths are about 0.25 mm
(0.009 inch) long and 0.2 mm (0.007 inch) high.
They feed on water corn
They love water spinach
They wander underwater all day
They furrow your brow at night
Elephas minimus are semi-nocturnal.
They are particularly fond of translucent waters
Of pikes, perches and pebbles.
Elephants, real or ethereal,
Are never seen in water elephant habitat.
Instinct tells them —
Water elephant bite is fatal.

*  *  *

Enunciando uma rima pelo Venerável Takkhiaindria

Anúncio, ou propaganda
Ocupação, ou invasão
Anote corretamente
Para fins de escrita.

Chutando a bola de vime,
Ou carregando água,
O público está sempre lá.
Adicione hominem ad hominem.

Conversa pra boi dormir
Aumenta a cada noite
Caso eu tivesse esperado,
estaria atrasado.
seu belo Bastardo!

Tradução: Aurora Bernardini

Spelling Rhyme by Venerable Takkhiaindria

Advertisement, or announcement
Occupation, or squatting
Right it up correctly
To the write effect.

Kicking the rattan ball,
Or hauling water,
Audience is always there.
Add hominem ad hominem.

Your sleep-talk
Swells every night
If I had waited up,
I’d have been late.
You bastard!

O birmanês original

O birmanês original

*  *  *

Reading poetry

Sibila: Do you read poetry?

Thett: I do.

Sibila: What kind of poetry do you read?

Thett: Contemporary Burmese poetry naturally. Contemporary world poetry in English translation in general.

Sibila: Do you think that reading poetry would produce any effect?

Thett: Reading poetry would produce both rotatory and translatory effects, that kind of fanciful unease which is neither here nor there. You can’t place it anywhere. Yet you know it does exist.

Writing poetry

Sibila: What do you expect from writing poetry?

Thett: Angst of inexactness.

Sibila: In your opinion, which is the best effect one can get from practicing poetry?

Thett: Poetry practitioners should end up in nirvana. Poets are better off in Avizi, the hell of all hells in Buddhism.

Sibila: Do you think your poetry has any public value?

Thett: I have no idea. What is ‘public value’?

Publishing poetry

Sibila: Which is the best support for your poetry?

Thett: Money, or lack of thereof.

Sibila: Which is the best result you expect from the publishing of your poetry?

Thett: Publishing reduces a poem into a ‘piece’ of text in a book … The duty of the poet is to rescue his work from the book and place it back in an oral tradition.

Sibila: Who is the best reader of your poetry?

Thett: I have no idea.

Sibila: What would you most like to happen after the publication of your poetry?

Thett: I will sit down to seriously think again when to stop only to end up with yet another shot.

*  *  *

Leia a série completa

 

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino
Texto introdutório: Alcir Pécora
Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a Revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si.

A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural ( as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.

Sobre Ko Ko Thett

Poeta, tradutor, editor e exilado político até 2011, nasceu em Rangum em 1972. Em 1995, enquanto estudava engenharia no Instituto de Tecnologia de sua cidade natal (YIT), lançou clandestinamente seu primeiro livro de poemas Old Gold. Com o lançamento de Funeral do ouro resistente, seu segundo livreto, ele foi detido, em uma base militar por 135 dias, por seu engajamento na insurreição política de dezembro de 1996. Após a sua libertação, em abril de 1997, Ko Ko Thett deixou tanto o YIT como a própria Birmânia, mudando-se para Singapura e, em seguida, para Bangkok, onde passou três anos trabalhando para o Serviço Jesuítico aos Refugiados Ásia-Pacífico. Em 2000, Thett foi para a Finlândia, onde fez estudos de paz e conflito na Universidade de Helsinki, antes de se mudar para Viena, onde estudou no Instituto para o Desenvolvimento Internacional da Universidade de Viena. Atualmente, vive na Bélgica e é o editor do website birmano “Poesia Internacional” e co-editor e tradutor de Bones Will Crow: 15 Contemporary Burmese Poets, an anthology of Burmese poetry, que, em 2012, recebeu o prêmio English PEN Writers in Translation Programme (Inglaterra) e foi considerado pelo jornal inglês The Guardian “um dos dez melhores livros que captam um dos países mais tumultuados da história”. Saiu, este ano, The Burden of Being Burmese, seu novo livro de poemas.