Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Marco Giovenale

MARCO GIOVENALE nasceu em fevereiro de 1969, em Roma. Formou-se em Artes, com uma tese sobre a poesia de Roberto Roversi. Ao longo dos anos, manteve inúmeras atividades, inclusive a de curador de exposições, e de novembro de 2000 até 2010 trabalhou em uma livraria romana que lida com livros antigos e modernos (de literatura, da poesia do século XX italiana e estrangeira, de filosofia, história). Publicou vários volumes de poesia. Mantém o blog slowforward.

Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Giovenale: Sim. Posso até dizer que talvez leia mais poesia e ensaística (e prosa breve) do que narrativa. De narrativa leio contos, quase nunca romances.

Sibila: Que poesia você lê?

Giovenale: Não amo a poesia lírica, realística, narrativa, confessional. Não amo o epigonismo hiperlinguístico ou “oulipo-style” de alguns intérpretes das recentes estações da neovanguarda. Em lugar disso, acompanho e pratico uma escritura de pesquisa entendida como littéralité e prosa em prosa, para citar Jean-Marie Gleize.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Giovenale: A leitura de resíduos líricos, confessionais, retóricos, épicos, sublimes, assertivos, bonnefoyeurs, rilkeanos, montalianos e serenianos, oulipianos, laborínticos, narrativos, egocentrados, performativo-espetaculares consegue um efeito liberatório central: o efeito cômico. É divertido ler ou ouvir (esta) poesia.

Escrita de poesia

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Giovenale: Que não fale “poetês” e que o leitor não espere encontrar ali o autor, mas o texto em si e os seus objetos. Eventos, coisas, matéria, relações, dúvidas. Não ego.

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Giovenale: Os efeitos são muitos. Se a poesia é “old style” receio que o único efeito seja o que já citei, o hilariante (a não ser que os leitores se deixem levar um pouco pela ingenuidade). Se, ao contrário, se trata de escrituras avisadas, conscientes da situação atual, um bom efeito é o de permitir às pessoas não se mensurar apenas com a (má) literatura, mas com algo de diferente. De diferente também (e sobretudo) da figura autoral.

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Giovenale: No sentido acenado acima, talvez sim. Mesmo se a que faço pode ser definida, provavelmente, pós-poesia. Não poesia, portanto.

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Publicação de poesia

Sibila: Qual o melhor suporte para a sua poesia?

Giovenale: Rede e papel, áudio e livro, vídeo e leitura live têm estatutos diferentes e trançados, e efeitos igualmente diferentes e trançados. Em sinergia, mas também um obstaculizando o outro, às vezes, reciprocamente. Não existe um suporte que seja o “melhor”. Quem sabe, cada novo texto, se for um texto que procura, irá caçar seu próprio veículo, querendo que seja adequado, ou menos inadequado.

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Giovenale: Encontrar um tipo de leitura que apaixone o leitor e não o obrigue a centrar o foco de sua atenção sobre uma espécie de “espelho do autor”, mas sobre a própria página, sobre os objetos que ela contém, e sobre as aberturas da imaginação que ela veicula.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Giovenale: Quem me esquece, mas se lembra do texto. E a partir daí (ouso dizer), cria seus próprios textos, sua própria vida.

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Giovenale: Aquilo que acabo de dizer. Que o leitor fizesse, de minha poesia, matéria para sua própria indagação sobre o mundo, sobre suas viagens e suas imaginações.

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Lettura di poesia

Sibila: Lei ha l’ abitudine di leggere poesia?

Giovenale: Sì. Posso addirittura dire che forse leggo più poesia e saggistica (e prosa breve) che narrativa. In narrativa leggo racconti, quasi mai romanzi.

Sibila: Che tipo di poesia?

Giovenale: Non amo la poesia lirica, realistica, narrativa, confessional. Non amo l’epigonismo iperlinguistico o ‘oulipo-style’ di alcuni interpreti delle stagioni recenti della post-neoavanguardia. Semmai seguo e pratico una scrittura di ricerca intesa come littéralité e prosa in prosa, per citare Jean-Marie Gleize.

Sibila: Le sembra che la lettura di poesia produca qualche effetto?

Giovenale: La lettura dei cascami lirici, confessional, retorici, epici, sublimi, assertivi, bonnefoyeurs, rilkeggianti, montaliani e sereniani, oulipiani, laborintici, narrativi, egocentrati, performativo-spettacolari ottiene un effetto liberatorio centrale: l’effetto comico. È divertente leggere o ascoltare (questa) poesia.

Scrittura di poesia

Sibila: Cosa si aspetta dalla poesia che scrive?

Giovenale: Che non parli il ‘poetese’, e che il lettore non cerchi di trovarci l’autore dentro, bensì il testo stesso e i suoi oggetti. Eventi, cose, materia, relazioni, dubbi. Non ego.

Sibila: Quale è, secondo lei, il miglior effetto che si ottiene dalla pratica della poesia?

Giovenale: Gli effetti sono molti. Se la poesia è ‘old style’ temo che l’unico effetto (salvo che in lettori che si lasciano un po’ prender la mano dall’ingenuità) sia quello citato, esilarante. Se al contrario si tratta di scritture avvertite, coscienti della situazione attuale, un buon effetto è quello di permettere alle persone di non misurarsi solo con la (cattiva) letteratura ma con qualcosa di diverso. Di diverso anche (e soprattutto) dalla figura autoriale.

Sibila: Crede che la sua poesia abbia un interesse pubblico?

Giovenale: Nel senso detto sopra, forse sì. Anche se quella che faccio è definibile, probabilmente, post-poesia. Non dunque poesia.

Pubblicazione di poesia

Sibila: Quale considera il migliore supporto per la sua poesia?

Giovenale: Rete e carta, audio e libro, video e lettura live hanno statuti diversi e intrecciati, ed effetti parimenti diversi e intrecciati. In sinergia ma anche in reciproco ostacolo, talvolta. Non esiste forse un supporto “migliore”. Forse ogni nuovo testo, se è di ricerca, va a caccia del proprio veicolo. Vuole che sia adatto. O meno inadatto.

Sibila: Quale è il miglior risultato che si aspetta dalla pubblicazione della sua poesia?

Giovenale: Incontrare un tipo di lettura che appassioni il lettore e non lo obblighi a centrare il fuoco della sua attenzione su una sorta di ‘specchio dell’autore’, ma sulla pagina stessa, gli oggetti che contiene, e le aperture immaginative che veicola.

Sibila: Quale è il miglior lettore del suo libro di poesia?

Giovenale: Chi mi dimentica, ma ricorda il testo. E crea propri testi, propria vita (oso dire), da lì.

Sibila: Cosa le piacerebbe di più che succedesse dopo la pubblicazione della sua poesia?

Giovenale: Quel che ho appena detto. Che il lettore ne facesse materia per le proprie indagini sul mondo, per i propri viaggi e le proprie immaginazioni.

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Leia a série completa

 

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino
Texto introdutório: Alcir Pécora
Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a Revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si.

A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural ( as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.