Sibila, lugares contemporâneos da poesia: John Yau

JOHN YAU, nascido em Lynn, Massachusetts, em 1950, é um poeta e crítico norte-americano que vive em Nova York. Publicou mais de 50 livros, entre poesia, ficção e crítica de arte.

Os pais de Yau estabeleceram-se nos anos 1950 em Boston, depois de emigrarem da China em 1949. No final dos anos 1960, John Yau estava, na mesma Boston, exposto às leituras de poesia antiguerra e à contracultura e então manteve contato com os poetas Robert Bly, Denise Levertov e Robert Kelly; este lhe parecia um tipo diferente de autor: misterioso, interessado em ocultismo, em gnosticismo e artes plásticas.

Yau foi o editor do Brooklyn Rail (2006-2011), importante publicação relativa às artes plásticas. Desde março de 2004 também dirige uma pequena editora, Black Square Editions, que publica traduções, poesia e ficção. Yau atualmente leciona crítica de arte na Escola Mason Gross de Artes, Universidade Rutgers.

Publica e publicou crítica de artes plásticas em Artforum, Art in America, Art News, Bookforum e no Los Angeles Times.

Yau tem trabalhado com diversos artistas, incluindo Norman Bluhm, Ed Paschke, Peter Saul, Pat Steir, Jürgen Partenheimer, Norbert Prangenberg, Squeak Carnwath, Thomas Nozkowski, Max Gimblett e Richard Tuttle, em projetos diferentes. Estas colaborações foram expostas no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), no Kunstmuseum de Bonn, Alemanha, e na Galeria de Arte de Queensland, South Brisbane, Austrália.

Em janeiro de 2012, ele começou a editar a revista on-line Hyperallergic Weekend.

Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Yau: Leio poesia todos os dias. Comecei a fazê-lo quando estava na Faculdade.

Sibila: Que poesia você lê?

Yau: Leio sobretudo a poesia definida como experimental, não narrativa ou opaca. Volto sempre aos trabalhos de meus poetas favoritos. Leio também obras de poetas jovens que não conheço, mas de quem ouvi falar em um ou outro contexto – creio que isso poderia ser chamado de “amostragem”. Sinto-me atraído por trabalhos que não são, ao mesmo tempo, nem entediantes, nem de entretenimento.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Yau: O efeito que a leitura de poesia provoca em mim é múltiplo. Leva-me a pensar concretamente sobre os limites da língua e sobre o que ela pode dizer. Levanta questões. Às vezes é surpreendente. Me causa um prazer que não encontro em nenhum outro lugar.

Escrita de poesia

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Yau: Quero escrever algo que nunca li e que nunca ouvi antes.

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Yau: A prática de escrever – na qual a poesia ocupa uma grande parte – integra minha vida cotidiana. Escrever é a maneira central de eu moldar minha passagem pelo tempo, a respeito do que quase nada posso fazer. Quando muito, essa prática devo-a à crença de que é possível fazer algo novo sob o sol (ou algo a respeito do qual se tem um insight diferente). Não acredito que a história seja linear.

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Yau: A poesia é sim de interesse público, mas não nos termos em que é discutida no mainstream, que, em grande parte, odeia as artes. O valor da poesia consiste em sua aliança com a anarquia, com o desafio, com o equívoco, com o seu enfrentamento direto com a maneira convencional de pensar e com as opiniões estabelecidas. Quanto à pergunta que é feita aqui, eu mudaria a palavra “poesia” pela palavra “língua”. A língua tem algum interesse público? [Eu: Barthes já escreveu sobre isso]

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Publicação de poesia

Sibila: Qual o melhor suporte para a sua poesia?

Yau: Não creio que haja um suporte único melhor, mas a combinação abarcada pela internet: revistas, trocas de e-mails, textos e livros – qualquer veículo capaz de levar o trabalho de um lugar para outro, de forma eficaz.

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Yau: O melhor resultado é que alguém leia o que foi publicado e ache que merece que se fale a respeito, positiva ou negativamente.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Yau: Eu me pergunto quem poderia ser meu melhor leitor. Alguém que fica intrigado com os poemas? Alguém que tira alguma coisa do que lê – qualquer que seja a coisa? Ou será alguém que irá ler meus poemas de novo? A poesia é uma batalha filosófica. É a descoberta do possível. Acho que meu melhor leitor é quem reconhece isso.

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Yau: Eu gostaria que meu trabalho ganhasse novos leitores, tanto quanto representasse uma surpresa e/ou um desafio para os que já leram minhas produções anteriores.

Mais sobre John Yau

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Reading poetry

Sibila: Do you read poetry?

Yau: I read poetry every day, which I began doing while I was in college.

Sibila: What kind of poetry do you read?

Yau: For the most part, I read poetry that is defined as experimental, non-narrative or opaque. I return to work by favorite poets. I also read work by young poets I don’t know of, but whose names I heard of in some context or another – I suppose this could be called “sampling”. I find that I am drawn to work that is neither boring nor entertaining.

Sibila: Do you think that reading poetry would produce any effect?

Yau: The effect that reading poetry has had on me is multiple. It gets me to think concretely about the limits of language and what it can say. It raises questions. Sometimes it is astonishing. It gives me a pleasure that I have not found anywhere else.

Writing poetry

Sibila: What do you expect from writing poetry?

Yau: I want to write something that I have neither read nor heard before.

Sibila: In your opinion, which is the best effect one can get from practicing poetry?

Yau: The practice of writing-of which poetry is a very big part-is an integral part of my everyday life. Writing is the central way I shape my passage through time, which I can do almost nothing about. At the very least, this practice is predicated on the belief that it is possible to make something fresh (or gain a new insight) under the sun. I don’t believe that history is linear.

Sibila: Do you think your poetry has any public value?

Yau: Poetry has a public value, but not in the ways that are discussed in the mainstream media, which to a large degree hates the arts. Poetry’s value is its allegiance to anarchy, defiance, and mischief, its direct confrontation with conventional ways of thinking and received opinions. As for the question you ask, I would change the word “poetry” to “language”. Does language have any public value?

Publishing poetry

Sibila: Which is the best support for your poetry?

Yau: I don’t think any single support system is the best, but a combination that spans the Internet, magazines, email exchanges, readings and books – any kind of vehicle that efficiently gets the work from here to there.

Sibila: Which is the best result you expect from the publishing of your poetry?

Yau: The best result is that someone reads what has been published and think it is worth talking about, positively or negatively.

Sibila: Who is the best reader of your poetry?

Yau: I wonder who my best reader is. Is it someone who puzzles over the poems? Is it someone who gets something – whatever that something is – out of it? Or is it someone who will read it again? Poetry is a philosophical endeavor. It is the discovery of what’s possible. I think my best reader is the person who recognizes that.

Sibila: What would you most like to happen after the publication of your poetry?

Yau: I would like the work to gain new readers, as well as surprise and/or challenge those have read my earlier publications.

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Leia a série completa

 

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino
Texto introdutório: Alcir Pécora
Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a Revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si.

A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural ( as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.