Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Norbert Lange

NORBERT LANGE nasceu em 1978 em Gdingen, na Polônia. Mudou-se com os pais para a Alemanha nos anos 1980. Estudou história da arte, filosofia e cultura judaica em Berlim e, depois, literatura em Leipzig. Desde 2008, vive em Berlim, onde, entre outros, dirigiu de 2009 a 2010 o chat de poesia eMulitpoetry. Atualmente edita, junto com Konstantin Ames, Richard Duarj e Léonce W. Lupette, a revista virtual Karawa.net, fundada em 2010. Também é redator da revista literária radar. Entre suas publicações estão os seguintes livros de poesia: Rauhfasern (2000 e 2005) e Das Schiefe, das Harte und das Gemalene (2012), e o livro de ensaios Das Geschriebene mit der Schreibhand (2010). (NT, nota da tradutora)

Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Lange: Claro.

Sibila: Que poesia você lê?

Lange: Sou um colecionador. No meu tempo de escola, primeiro líamos os expressionistas, sobretudo Jakob van Hoddis. Pouco tempo depois, passamos a ler tudo o que se havia traduzido dos clássicos da vanguarda, sobretudo, os surrealistas: Desnos, Breton, Soupault. Depois, debrucei-me sobre a lírica alemã recente. E, por fim, de há dez anos para cá, comecei a traduzir, sobretudo autores de língua inglesa: George Oppen, Zukofsky, Olson. Junto com amigos, traduzi uma grande coletânea de poemas escolhidos de Charles Bernstein. Nos últimos tempos, foram estas as minhas leituras mais intensivas. Neste preciso momento, traduzo Jerome Rothenberg.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Lange: Sim. No melhor dos casos, ao desafiar o leitor a ler e a reler o texto. Poetisas e poetas, cujos trabalhos eu leio primeiro como uma exigência, me levam a lê-los e relê-los.

Escrita de poesia

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Lange: Uma surpresa.

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Lange: Mais do que uma surpresa. A vontade de abrir a boca e declamar um poema. Seria isto já uma poetização do cotidiano? Talvez. Ver o poema como objeto, onde se pode realizar a liberdade. Com certeza.

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Lange: Isso depende totalmente do público. Às vezes, reage. Extraordinário é, por exemplo, quando as pessoas, durante a leitura pública, se levantam e vão embora. Não vivenciei isso muitas vezes. Não considero isso uma crítica, prefiro ver nisso uma reação, que pode me deixar contente. O que não significa ser ruim, quando os outros permanecem sentados, porque estão gostando.

Publicação de poesia

Sibila: Qual o melhor suporte para a sua poesia?

Lange: Gosto de fazer livros. Junto com amigos, edito na internet a Revista Karawa.net. De um modo geral, considero todos os veículos apropriados, todos aqueles que permitem armazenar poesia e torná-la acessível.

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Lange: Entrar em diálogo. Não como objeto. Como pessoa.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Lange: Ver acima (“Ler poesia”).

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Lange: Um novo projeto e a continuação de velhos projetos, já terminados ou em aberto. Movimento.

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Dichtung Lesen

Sibila: Lesen Sie Dichtung?

Lange: Sicher doch.

Sibila: Welche Art von Dichtung lesen Sie?

Lange: Ich bin ein Sammler. In meiner Schulzeit betraf das zuerst die deutschen Expressionisten, vor allem Jakob van Hoddis. Kurze Zeit später alles, was an Übersetzung von den klassischen Avantgarden zu bekommen war, Surrealisten vor allem, Desnos, Breton, Soupault. Dann habe ich jüngste deutsche Lyrik gesammelt. Und schliesslich, seit zehn Jahren, seit ich angefangen habe zu übersetzen, vor allem englischsprachige Autoren, George Oppen, Zukofsky, Olson. Mit Freunden zusammen haben wir einen umfangreichen Band ausgewählter Gedicht von Charles Bernstein übersetzt. Das war in der letzten Zeit meine intensivste Lektüre. Grade übersetze ich Jerome Rothenberg.

Sibila: Sind Sie der Meinung, dass das Lesen von Dichtung irgendeine Wirkung in den Menschen hervorruft?

Lange: Ja. Im besten Fall provoziert es, indem es einen dazu herausfordert, den Text wieder und wieder zu lesen. Dichterinnen und Dichter, deren Arbeiten ich zuerst als eine Zumutung empfinde, bringen mich dazu, sie immer wieder zu lesen.

Dichtung Schreiben

Sibila: Was erhoffen Sie sich, wenn Sie Dichtung schreiben?

Lange: Eine Überraschung.

Sibila: Welches ist Ihrer Meinung nach die beste Wirkung, die das Lesen und Schreiben von Dichtung erzeugen kann?

Lange: Mehr als eine Überraschung. Die Lust den Mund zu öffnen und ein Gedicht zu sprechen. Wäre das schon eine Poetisierung des Alltags? Vielleicht: Das Gedicht als Gegenstand zu sehen, an dem man Freiheit realisieren kann. Ganz sicher.

Sibila: Glauben Sie, dass Ihre Dichtung beim Publikum auf Interesse stößt?

Lange: Das kommt ganz auf das Publikum an. Es reagiert, manchmal. Wunderbar ist zum Beispiel, wenn Leute während der Lesung (wegen der Lesung) aufstehen und gehen. Oft habe ich das nicht erlebt. Ich halte das für keine Kritik, sondern sehe darin eine Wirkung, über die ich mich freuen kann. Was nicht bedeutet, dass es schlimm ist, wenn andere sitzen bleiben, weil es ihnen gefällt.

Dichtung Veröffentlichen

Sibila: Welches Medium ist Ihrer Meinung nach das beste zur Verbreitung Ihrer Dichtung?

Lange: Ich mache gerne Bücher. Mit Freunden zusammen gebe ich die Netz-Zeitschrift Karawa.net heraus. Generell halte ich jedes Medium für geeignet, mit dem Dichtung gespeichert und zugänglich gemacht werden kann.

Sibila: Welches ist Ihrer Meinung nach das beste Resultat, das Sie sich bezüglich der Veröffentlichung Ihrer Dichtung vorstellen können?

Lange: Ins Gespräch zu kommen. Nicht als Gegenstand. Als Person.

Sibila: Welches Profil hat der ideale Leser Ihrer Dichtung?

Lange: Siehe oben (“Dichtung lesen”).

Sibila: Was sollte Ihrer Meinung nach am besten nach der Veröffentlichung Ihrer Dichtung geschehen?

Lange: Ein neues Vorhaben und die Fortsetzung alter abgeschlossener oder offener Vorhaben. Bewegung.

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DIE STARE HJERTØYAS (w)
Norbert Lange

Haben wir im Stich gelassen, die Stare Hjertøyas;
die noch singen…, der Insel ihr Lied noch
kratzen…, zitieren der Luft ihr Alphabet
nach Schnabel gemalen und setzen Wolkenfragmente
von Wolken in Wolkenrahmen.

Aus diesem Leim zusammen fügen sie die Welt;
an ihren Notenfüßen im Obertonbereich
an Bäume gehängt, zerschneiden Luft
bestreuen den Kammerboden; in Klammer gesetzt
ans Fenster, bedecken mit Zeichen das Haus.

So singen sie, vermischt zu Nokiaklingeln, die Laute
darüber die Stimme düst, in ihnen gelöst
von der Kehle, keinen Schaum rasiert, den Kopf
hör zu: Dadada jetjetjetjetjetjetjetjetjet
Oooooooooooooooooooooooooooooo Bee bee bee
bee bee……….

In der Krone einer alten Kiefer am Strande von Wyk auf Föhr hörte ich Schwitters jeden Morgen seine Lautsonate üben. Er zischte, sauste, zirpte, flötete, gurrte, buchstabierte
Hans Arp.1

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OS ESTORNINHOS DE HJERTØYA2 (w)3

Deixamos na mão4 os estorninhos de Hjertøya;
que ainda cantam…, da ilha sua canção ainda
arranham…, recitam do ar seu alfabeto
a bico despeçado,5 colocando nuviosos fragmentos
de nuvens em molduras de nuvens.

Desse visgo, juntos eles conformam6 o mundo;
Em suas notas de música fundamental
em árvores pousadas, retalham ar
espargem o chão do aposento; entre parênteses,
à janela, cobrem a casa de sinais.

Assim cantam eles, mesclados com sons Nokia, os tons
acima, a voz dissipa, neles diluída
da garganta, não há espuma para barbear, a cabeça
preste atenção: Dadada ietietietietietietietietiet
Oooooooooooooooooooooooooooooo Bê bê bê
bê bê ……….

“Todas as manhãs, na copa de um velho pinheiro na praia de Wyk, na ilha de Föhr,7 eu escutava Schwitters,8 treinando suas sonatas. Ele assobiava, bramia, estridulava, chilreava, arrulhava, soletrava.”
Hans Arp9

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(Re: Lied aus Nix)

Lieber,

Ich schreib dir wegen den Pferden
kanns solang du wills bei bleiben
hoffentlich is okay für dich

führt nämlich eigentlich zu nix
Hab Pferde aufer Koppel gesehn, am Grasen
davongejagt wie blöd, jetzt weiss ich nicht

eins davon sah aus wie du;
bin ich die den Springer führt, die Hand

oder der auf seinen vier Hufen
mit den anderen ins Freie springt
um zwischendurch ein Mal auf Luft zu laufen?

Steckenpferd

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(Re10: Canção de nada11)

Querido,

Escrevo-lhe por causa dos cavalos
Pode ficar o quanto quiser
Oxalá tudo esteja okay

Realmente, não leva a nada
Observei cavalos pastando, na pradaria
Correndo como loucos, agora não sei

Um deles parecia-se com você;
Será que sou aquela que conduz o cavalo, a mão

Ou aquele sobre seus quatro cascos
Que com os outros salta para a liberdade
Para, vez por outra, pelos ares chegar a galopar?

Cavalo de pau

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Tradução: Celeste Ribeiro de Sousa

Notas

  1. Fonte: Das Schiefe, das Harte und das Gemalene. Gedichte. Wiesbaden: Luxbooks, 2012. (NT)
  2. Hjertøya é uma idílica ilha norueguesa, localizada no fiorde Molde. (NT)
  3. “w” é uma sigla usada nos “chats”, que significa “with” ou “whisper”.
  4. “im Stich lassen” é uma expressão que significa “deixar na mão, abandonar”. Porém, o substantivo “Stich”, sozinho, quer dizer “picada”, “estocada”, e aponta, portanto, também para o bico dos pássaros. (NT)
  5. “gemalen”, forma arcaica de “gemahlt”, provém do verbo latino “molere”, que deu origem ao verbo “mahlen” (= moer). (NT)
  6. O verbo “fügen” aponta para a expressão “wie Gott es fügt” = “como Deus dispõe”. (NT)
  7. Föhr é uma das ilhas frísias no Mar do Norte. (NT)
  8. Kurt Schwitters (20.06.1887-08.01.1948) foi um artista alemão que trabalhou com vários gêneros: poesia, música, pintura, escultura, desenho gráfico, tipografia e com o que veio a ser conhecido como “instalação”. Cultivou o Dadaísmo, o Construtivismo, o Surrealismo, a Colagem. (NT)
  9. Hans Arp foi um pintor e poeta “dadá” alemão, naturalizado francês, nascido a 16 de setembro de 1886, em Strassburg, e falecido a 7 de junho de 1966 em Basileia, na Suíça. (NT)
  10. Re: sigla usada nos “chats”, que significa “returned”. (NT)
  11. Em alemão, o vocábulo “Lied” (= canção) designa um poema passível de um arranjo musical para piano e cantor solo. São famosas as “canções” de Schubert, Schumann e Brahms. O vocábulo “nix” pode apontar para “nicht” = “nada” ou para “Nix” = “sereia, Ondina”. (NT)

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Leia a série completa

 

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino
Texto introdutório: Alcir Pécora
Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a Revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si.

A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural ( as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.

Sobre Norbert Lange

Nasceu em 1978 em Gdingen, na Polônia. Mudou-se com os pais para a Alemanha nos anos 1980. Estudou história da arte, filosofia e cultura judaica em Berlim e, depois, literatura em Leipzig. Desde 2008, vive em Berlim, onde, entre outros, dirigiu de 2009 a 2010 o chat de poesia eMulitpoetry. Atualmente edita, junto com Konstantin Ames, Richard Duarj e Léonce W. Lupette, a revista virtual Karawa.net, fundada em 2010. Também é redator da revista literária radar. Entre suas publicações estão os seguintes livros de poesia: Rauhfasern (2000 e 2005) e Das Schiefe, das Harte und das Gemalene (2012), e o livro de ensaios Das Geschriebene mit der Schreibhand (2010).