Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Paul Hoover

PAUL HOOVER é um poeta e editor americano nascido em 1946, em Harrisonburg, Virginia. Seu trabalho tem sido associado a práticas inovadoras de poesia. Depois de muitos anos como poeta residente no Columbia College em Chicago, ele aceitou o cargo de professor de Escrita Criativa na San Francisco State University em 2003. Vive em Mill Valley, Califórnia. Hoover é amplamente conhecido como editor, com Maxine Chernoff, da revista literária New American Writing, publicada uma vez por ano em associação com a San Francisco State University. Ele também é conhecido por editar a antologia Postmodern American Poetry, 1994. A segunda edição da antologia foi publicada em 2013. Hoover escreveu o roteiro para o filme independente Viridian (1994), dirigido por José Ramirez, que foi exibido no Centro de Cinema do Instituto de Arte de Chicago e projetado no Hamburg Film Festival.

Sua poesia tem aparecido nas revistas literárias AmericanPoetry Review, Triquarterly, Conjunctions, The Paris Review, Partisan Review, Sulfur, The New Republic, Hambone, entre outras. Ele também apareceu em várias antologias.

Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Hoover: Eu leio um bocado de poesia, por meu próprio prazer e como coeditor do New American Writing e editor da antologia Postmodern American Poetry (1994 / 2013). Também leio poesia com olhar crítico e encorajador, enquanto professor. De qualquer maneira, a leitura de poesia informa minha própria prática. Quando li e traduzi Friedrich Hölderlin, com Maxine Chernoff, mudei minha maneira de escrever [meu jeito de abordar a escrita].

Sibila: Que poesia você lê?

Hoover: Gosto de voltar para Emily Dickinson, George Herbert, César Vallejo, Federico Garcia Lorca, a “O peixe” de Marianne Moore, a “O alce” de Elizabeth Bishop, a Carlos Drummond de Andrade, Gerard Manley Hopkins, Wallace Stevens, William Carlos Williams e a Lorine Niedecker, cujos trabalhos restabelecem minha crença na magia e no bom senso da poesia. A esta lista ainda acrescentaria Hölderlin, Rilke e Celan. Minha tendência tem sido sempre para a metafísica, onde o jogo se une à profundidade. O estilo metafísico é surpreendentemente adequado a [compatível com] modelos experimentais como o Conceitualismo e o Procedimentalismo.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Hoover: O efeito é o mesmo que eu sinto quando estou ouvindo música. As palavras e o ritmo ficam em minha cabeça e me levam a prestar atenção a meu próprio jeito de escrever. O efeito da poesia é um conhecimento mais profundo e a beleza. As palavras nos afiam. Acredito que a poesia é otimista e nos recompõe, mesmo quando ela é terrivelmente trágica. Se os tiranos e os oligarcas entendessem a poesia, o mundo seria um lugar melhor.

Escrita de poesia

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Hoover: Quero que a poesia me surpreenda e me transporte. Isso só pode acontecer quando diz a verdade – por exemplo, quando a chama e a borboleta têm certos traços em comum (Ponge). Escrever um poema pode ser uma experiência exaustiva. Você acha que não consegue ir a lugar algum e adormece à sua escrivaninha, num estado que Frank O’Hara chamou “quandariness” [dilematicidade]. Isso pode acontecer mesmo quando o resultado é um poema maravilhoso. Os poemas são uma investigação de identidade e diferença, onde a beirada (assunto) encontra seu vinco (forma).

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Hoover: Você pode mudar o mundo e a si próprio, pelo menos momentaneamente. Mas são necessárias muita prática e uma intuição virgem para saber o que aceitar e o que rejeitar [o que recolher e o que dispersar]. Muitas vezes o ritmo de um poema é seu aspecto mais memorável. O ritmo do pensamento determina os pesos e as medidas do trabalho: “which is the son/ leaving off the g/ of sunlight and grass” (William Carlos Williams). Da mesma forma, ao leitor é dado o ritmo (o passo) para acompanhar. Shakespeare foi tão influente que alterou a língua inglesa.

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Hoover: A melhor poesia é universal e estimula o interesse pessoal a se juntar com o público. Meus livros desde os Poems in Spanish (2005) têm sido relativamente abertos e diretos, tanto no tema quanto na formulação, mas eu lido também com o velamento/desvelamento e com a dublagem do material que tenho à disposição. Por mais inovadores que sejam Trilce de Vallejo e Atemwende de Celan, nunca são nonsense. Se você não capta a coisa na primeira leitura, leia de novo, em voz alta. Minha poesia tem interesse público na claridade de sua emoção e na tendência para o epigrama.

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Publicação de poesia

Sibila: Qual o melhor suporte para a sua poesia?

Hoover: Amigos que eu tenho na comunidade da poesia inovadora, especialmente Maxine Chernoff, têm sido muito importantes. Sou grato também à Universidade Estatal de San Francisco por me haver encorajado na prática da diversidade e da liberalidade. Meu professor, Paul Carroll, ajudou-me muito e a poeta mexicana María Baranda também é uma excelente leitora e tradutora de minha poesia.

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Hoover: Que os leitores a considerem importante, em sua vida. Que ela seja ensinada nas escolas e valorizada pela sociedade.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Hoover: Já me disseram que minha poesia é difícil. Mas o leitor que eu imagino é um estudante universitário cujo entusiasmo pela poesia é crescente – não é um teórico, mas uma pessoa medianamente culta.

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Hoover: Gostaria que a fila dos compradores do meu livro se estendesse pela rua e dobrasse a esquina. Que minhas edições se esgotassem no dia do lançamento e que fossem dadas de presente de Natal às crianças.

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Reading poetry

Sibila: Do you read poetry?

Hoover: I read a lot of poetry for my own pleasure and as co-editor of New American Writing and editor of the anthology Postmodern American Poetry (1994 / 2013). I also read it with a critical and encouraging eye as a teacher. In all cases, the reading informs my own practice. My reading and translation of Friedrich Hölderlin with Maxine Chernoff changed my approach to writing.

Sibila: What kind of poetry do you read?

Hoover: I love returning to Emily Dickinson, George Herbert, César Vallejo, Federico Garcia Lorca, Marianne Moore’s “The Fish”, Elizabeth Bishop’s “The Moose”, Carlos Drummond de Andrade, Gerard Manley Hopkins, Wallace Stevens, William Carlos Williams, and Lorine Niedecker, whose work restores my belief in poetry’s magic and good sense. To this list, I would add Hölderlin, Rilke, and Celan. My leaning has always been toward the metaphysical mode, where play joins with depth. The metaphysical style is surprisingly consistent with experimental modes like Proceduralism and Conceptualism.

Sibila: Do you think that reading poetry would produce any effect?

Hoover: Reading poetry has the same effect on me as listening to music. The words and rhythm stay in my head and bring me to attention for my own writing. The effect of poetry is beauty and deeper knowledge. We are sharpened by words. I believe that poetry is restorative and optimistic, even at its most tragic. If the tyrants and oligarchs understood poetry, the world would be a better place.

Writing poetry

Sibila: What do you expect from writing poetry?

Hoover: I want poetry to surprise and transport me. This can only be done by telling the truth — for instance, declaring that the flame and the butterfly share certain features (Ponge). Writing a poem can be an exhausting experience. You think you’re getting nowhere and fall asleep at your desk, in a state that Frank O’Hara called “quandariness”. This can happen even when the resulting poem is wonderful. Poems are an investigation of identity and difference, where the edge (subject) meets with its fold (form).

Sibila: In your opinion, which is the best effect one can get from practicing poetry?

Hoover: You can change the world and yourself, at least momentarily. But it takes a lot of practice and fresh intuition to know what to gather and scatter. Often the rhythm of a poem is most memorable aspect. The rhythm of thought determines the work’s weights and measures: “which is the son/ leaving off the g/ of sunlight and grass” (WCW). Likewise, the reader is given a pace for walking in company. Shakespeare was so influential that he altered the English language.

Sibila: Do you think your poetry has any public value?

Hoover: The best poetry is universal and encourages the private interest to join with the public. My books since Poems in Spanish (2005) have been relatively direct and open in theme and phrasing, but I also play with veiling, unveiling, and doubling the matters at hand. At their most innovative, Vallejo’s Trilce and Celan’s Atemwende are never nonsense. If you don’t get it on the first reading, read it again out loud. My poetry offers public value in the clarity of its emotion and tendency toward epigram.

Publishing poetry

Sibila: Which is the best support for your poetry?

Hoover: Friends in the innovative poetry community, especially Maxine Chernoff, have been very important. I’m also grateful to San Francisco State University for its encouragement of diversity and liberality of practice. My teacher, Paul Carroll, helped me considerably, and the Mexican poet María Baranda is also an excellent reader and translator of my work.

Sibila: Which is the best result you expect from the publishing of your poetry?

Hoover: Readers find it important to their lives. It is taught in the schools and valued by society.

Sibila: Who is the best reader of your poetry?

Hoover: I’ve been told that my poetry contains difficulty. But the reader I imagine is an undergraduate student with a developing enthusiasm for poetry — not the theorist, but the average literate person.

Sibila: What would you most like to happen after the publication of your poetry?

Hoover: The line to buy the book stretches down the street and around the corner. My editions sell out on the first day of publication and are given to children as Christmas stocking-stuffer.

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Leia a série completa

 

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino
Texto introdutório: Alcir Pécora
Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a Revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si.

A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural ( as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.

Sobre Paul Hoover

É um poeta e editor americano nascido em 1946, em Harrisonburg, Virginia. Seu trabalho tem sido associado a práticas inovadoras de poesia. Depois de muitos anos como poeta residente no Columbia College em Chicago, ele aceitou o cargo de professor de Escrita Criativa na San Francisco State University em 2003. Vive em Mill Valley, Califórnia. Hoover é amplamente conhecido como editor, com Maxine Chernoff, da revista literária New American Writing, publicada uma vez por ano em associação com a San Francisco State University. Ele também é conhecido por editar a antologia Postmodern American Poetry, 1994. A segunda edição da antologia foi publicada em 2013. Hoover escreveu o roteiro para o filme independente Viridian (1994), dirigido por José Ramirez, que foi exibido no Centro de Cinema do Instituto de Arte de Chicago e projetado no Hamburg Film Festival.